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domingo, 25 de julho de 2010

O CENTENÁRIO QUE NÃO ACONTECEU: 1911

Claudio Antunes Boucinha[1]
Introdução
Causa certa estranheza em algumas pessoas da comunidade as comemorações do bicentenário da fundação de Bagé.
Por um lado, na medida em que as pessoas aproximam-se dos fatos que desencadearão as comemorações de 2011, observam que as representações, desses mesmos fatos, possuem falhas, erros, equívocos, imperfeições.
Na História de Bagé, a fundação de Bagé, não é o único caso em que existem lacunas.
Como preencher essas lacunas, ausências, em um pensamento positivista?
O que significa uma história enquanto limite e possibilidade, e como lidar com representações da realidade e a relatividade do tempo e do espaço, em que a soma infinita de evidências, fatos, provas, argumentos, não significam totalidade histórica?
Por exemplo, a fundação de Bagé, foi motivo de profundos debates nas décadas de 50 e 60, como apontava Taborda (1983), em artigo esclarecedor.
17 de Julho de 1811
Apesar de João Antônio Cirne, o nosso proto-historiador, ter afirmado em seus ‘Apontamentos históricos de Bagé’, manuscrito datado de 1871, que a fundação desta cidade ocorrera a 17 de julho de 1811, quando Dom Diogo de Souza, depois de haver concentrado aqui o ‘Exército Pacificador’ sob seu comando, rumou para Montevidéu, essa data ficou esquecida por largos anos. Jorge Reis, ao publicar seus ‘Apontamentos históricos e estatísticos de Bagé’, em 1911, quando passou o centenário da Fundação de Bagé, deixou de registrar o dia desse acontecimento. É a partir de 1951, em publicação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aparece a data de 11 de nomeara comandante do Distrito ao Capitão Ricardo de Mello. Em sua memorável ‘História de Bagé’, Eurico Salis segue a mesma linha, que passa então a tomar consistência. Essa divergência entre a informação prestada por João Antônio Cirne, e a introduzida pelo IBGE e seguida por Eurico Salis, obrigou a realização de uma pesquisa, na farta documentação de Dom Diogo de Souza, referente a esse período, para esclarecer o momento em que Bagé nasceu. Walter Spalding, convidado para também estudar o assunto, em artigo divulgado pelo Correio do Povo de 20 de janeiro de 1955, mostrou que em 11 de junho Dom Diogo de Souza não se encontrava em Bagé, embora em viagem para esse Acampamento, e que sobre a nomeação do Capitão Ricardo de Mello, nada encontrara a respeito. O pesquisador gabrielense Gastão Abott, pelo mesmo jornal, em 1° de maio do mesmo ano, confirmava a data anunciada por João Antônio Cirne, como a da Fundação de Bagé e informava que o primeiro comandante do Distrito e Campo de Bagé havia sido o Tenente de Dragões Pedro Fagundes de Oliveira, dizendo inexistirem documentos sobre a presença de Ricardo Antônio de Mello e Albuquerque nesse posto, uma vez que à época era paisano. Quando aqui se reuniu, nas comemorações doBicentenário Do nascimento de Dom Diogo de Souza, um Congresso de História; apresentei tese no sentido de ser fixado o dia 17 de julho de 1811 como a data da Fundação de Bagé. Face à documentação oferecida ao exame dos participantes do conclave, entre os quais estavam os historiadores: Walter Spalding, Dante de Laytano, Félix Contreiras Rodrigues, Eurico Salis, Francisco Marques dos Santos, para citar apenas estes, foi aprovada por unanimidade essa data, pois os documentos apresentados eram irretratáveis. Em verdade, na correspondência expedida por Dom Diogo de Souza, como Governador do Rio Grande do Sul e Comandante em Chefe do ‘Exército Pacificador’, há um ofício dirigido ao Tenente de Dragões Pedro Fagundes de Oliveira, datado de 17 de julho de 1811, no qual anuncia a sua retirada deste ‘Acampamento dos Serros de Bagé’, e nomeia para Comandante do Campo e Distrito de Bagé, removendo-o da Guarda de São Sebastião onde se achava. O inverno rigoroso, com passos cheios, caminhos pesados, cavalos em mau estado, obrigaram Dom Diogo de Souza deixar no Acampamento de Bagé, não só os animais que deveriam se recuperar em pastagens que viessem após as chuvas e as geadas, mas principalmente, oficiais e soldados que permaneciam no hospital, munições de boca e guerra, que ficavam nos armazéns reais, além das famílias que haviam sido autorizadas a se deslocar para Bagé, com a finalidade de acompanhar os oficiais e soldados que estiveram aqui estacionados por quase um semestre. Assumindo o novo comando, Pedro Fagundes de Oliveira dizia a Dom Diogo de Souza, sentir-se ‘responsável por este Acampamento e seu Distrito, como autorizado para a defesa desta Fronteira, enquanto V. Ex.a. não permitir esta autoridade a outra patente mais superior’. Nasceu Bagé, pois da disposição de Dom Diogo de Souza em deixar aqui por força das condições climáticas, parte de seu exército, e da dedicação de Pedro Fagundes de Oliveira em promover o bem estar das pessoas que ficaram sob sua responsabilidade. O dia 17 de julho de 1811, como bem assinalava, há 112 anos, João Antônio Cirne, é o dia da fundação de Bagé; e sempre o haveremos de comemorar com chuva e frio, que esses rigores da natureza foram os padrinhos desse nascimento”. (TABORDA, Tarcísio Antônio Costa. CORREIO DO SUL. Bagé, 17 de julho de 1983, p. 02).
Veja-se que os debates intensificaram-se nas décadas de 1950 e 1960; mas, e antes, como se situava a questão da fundação de Bagé?
Foram citados dois relatos no artigo de Taborda: a) de 1871, de João Antônio Cirne,sessenta anos após a fundação de Bagé, “proto-história”, ou seja, não apropriadamente, em relato não essencialmente ou exclusivamente histórico; b) em 1911, época do centenário de fundação de Bagé, que não foi assinalado, nem mesmo por Jorge Reis, diretor da seção de estatística do município, que deixou passar em brancas nuvens a data fundamental de Bagé, em obra publicada exatamente no ano de 1911.
Qual a explicação para tanta indiferença, desdém, em atenuar, minorar os fatos de 17 de julho de 1811, até a década de 1950, em Bagé?
Coerentemente, a população valorizava o dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, visto a profunda religiosidade local; também se lembrava da guerra civil de 1835-1845, da guerra do Paraguai (1864-1870), mas ainda não havia um discurso elaborado sobre a fundação de Bagé.
Em 1911, lembrava-se que a “imagem do padroeiro desta cidade foi primitivamente colocada em uma capela coberta de palha na antiga guarda a três léguas ao norte de Bagé - muito além do secular forte de Santa Tecla que fora outrora linha divisória entre Portugal e Espanha -, noscampos do Capitão Pedro Fagundes de Oliveira. Em 1812, foi esta imagem transferida por aquele oficial, que era comandante militar, para um rancho dos que existiam no acampamento do General Dom Diogo de Souzae depois para a igreja de palha, no mesmo local em que, em1820, foi construída a de material, demolida em 1862, em cujos lugares e em maiores proporções foi levantado vasto templo que hoje (dia 20 de janeiro de 1911) reveste-se da máxima imponência para celebrar a festa de seu patrono. Sem dúvida, no tempo do domínio dos jesuítas foi essa imagem deixada em poder de pessoas religiosas que a conservaram com reverente carinho, providenciando, mais tarde, seu acolhimento ao templo católico desta cidade. (O COMERCIO. Ano 17. Nº 737. Bagé, sexta-feira, 20 de janeiro de 1911).
Figura 1: reprodução da imagem de são Sebastião. O COMERCIO. Ano 17. Nº 737. Bagé, sexta-feira, 20 de janeiro de 1911. Claudio Antunes Boucinha.
Aparentemente, a evolução administrativa de São Sebastião de Bagé era lembrança fundamental da comunidade. “No Brasil, durante o tempo da colônia, a freguesia era exatamente o mesmo que em Portugal, não havendo distinção entre freguesia e paróquia com descrito acima. Uma organização semelhante manteve-se durante o tempo do Império do Brasil no qual a Igreja Católica foi mantida como religião oficial do Estado, que tinha o dever de pagar salários para padres e bispos. Deste modo, era adequado que a estrutura administrativa civil não fosse distinta da estrutura eclesiástica. As províncias eram divididas em municípios que por sua vez eram divididos em freguesias. As freguesias correspondiam às paróquias, mas também havia curatos para serviços religiosos em povoações pequenas e sem autonomia política. Por sua vez, os bispos comandavam as dioceses, típica organização administrativa religiosa, que abrangiam geralmente diversos municípios, ou seja, diversas freguesias”. (Disponível em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Freguesia. Acessado em: 16 de dezembro de 2009).
Jorge Reis
“Teve início a fundação da hoje (1911) próspera cidade de Bagé, por um acampamento do exército português comandado pelo Tenente General D. Diogo de Souza, mais tarde vice-rei da Índia e conde do Rio Pardo, aqui chegado em dias do mês de junho de 1811(o ano de fundação, 1811, era informação segura; o mês, junho; o dia, incerto), acampando a margem direita do rio, pelo Leste. Esse velho cabo de guerra percorria as fronteiras do Rio Grande do Sul e defendia o nosso território contra sucessivas invasões de forças espanholas. A pequena povoação foi elevada à Freguesia (?), a 18 de maio de 1812 (na verdade, em 18 de maio de 1812, ‘com provisão de Dom José Caetano da Silva Coutinho, foi erigida finalmente a nova capela” de São Sebastião de Bagé; em 18 de junho de 1818, passou a Curato; em 05 de junho de 1846, foi elevada a categoria de Freguesia. FAGUNDES, E. M. de. Inventário Cultural de Bagé. Porto Alegre: Praça da Matriz, 2005, pp. 66-67). Segundo a tradição, deriva o nome de Bagé, de um velho cacique indígena, Ibagé (etimologia extremamente discutível; antropologicamente, também), que em fins do século XVIII existia neste sítio, onde faleceu em idade avançada e foi sepultado em um dos cerros; que, quais sentinelas avançadas, existem à meia légua de distância da cidade, ao Sudoeste. As mais importantes fazendas pertenciam - do Rio Negro até Jaguarão - as três famílias Barcellos, Coutos e Vaz; para os lados da Bolena e Camaquã-Chico, a Freitas, Martins, Jardim e Manoel Gonçalves, e pela margem direita e esquerda do [rio] Santa Maria, hoje (1911) município de D. Pedrito, a Cunhas, Barretos e Pintos. A população foi aumentando com certo número de famílias vindas de umpequeno estabelecimento ou aldeamento que se havia criado junto à antiga guarda de São Sebastião, onde existe hoje (1911) um cemitério. Desse ponto, foi pelo capitão Pedro Fagundes de Oliveira e outros fiéis, processionalmente (em procissão, em forma de procissão; de modo processional) transportada para a pequena povoação, a imagem de S. Sebastião que aí existia (não informava a origem da imagem), e depositada em uma capelinha de palha, ereta, naPraça Carlos Telles (denominação já em 1911), no local onde se vê hoje (1911), a nossa bela Matriz, um dos mais suntuosos templos do Estado,levantada em 1863 (na verdade, em 07 de setembro de 1862, foi lançada a pedra fundamental; FAGUNDES, 2005, p. 69), pelo hábil arquiteto Sr. José Obino. A primeira igreja de material foi começada em 1820 (?) (na verdade, foi iniciada em 1815 e dada como pronta em 1820; FAGUNDES, 2005, p. 67) e terminada dez anos depois (?), e os sepultamentos faziam-se no interior do templo e em redor do mesmo(costume medieval)”. (REIS, Jorge.Apontamentos Históricos e Estatísticos de Bagé. Bagé: Jornal do povo, 1911).
Conclusão
Nas reflexões que se encaminham sobre os 200 anos de Bagé, dentro de um ambiente salutar de democracia, tolerância, liberdade, nada melhor que perceber o limite da ciência histórica, bem como sua possibilidade. Atualmente, pode-se discutir e apontar erros dos antepassados, exatamente por que foi fruto de pesquisas, de estudos de inúmeras pessoas. Em 1911, embora todo o esforço de alguns munícipes que se interessavam por história, estava começando o fazer histórico da cidade de Bagé, embora já tivessem se passado 100 anos de fundação.


[1] Mestre em História do Brasil.

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