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terça-feira, 31 de julho de 2012

Posto Santa Tecla O Trabalho de Tarcísio Antônio Costa Taborda e Fernando La Salvia - I

Claudio Antunes Boucinha1

Em 26 de fevereiro de 1982, era anunciada a descoberta de um silo indígena perto do Forte de Santa Tecla. Conforme a matéria de jornal, era a “única” estrutura intacta encontrada até agora no Estado.

Como suposta “única” estrutura intacta arrolada no Estado, era claro que tinha uma importância singular para a ciência, naquele momento. O renomado arqueólogo Fernando La Salvia promoveu escavações no local desde 19 de janeiro de 1982. Ao que parece, o Posto de Santa Tecla era conhecido ou foi fundado por volta de 1640, em data não definida. Com relação ao silo, aparentemente tinha uma profundidade de três metros, conforme o relato. No silo, havia uma entrada subterrânea2. A cúpula do silo teria desabado porque a pedra que se encontrava atravessada na porta, cobria sua entrada que era subterrânea. Os vestígios encontrados, após as escavações no local, foram classificados como, de forma genérica, “vidros, louças, sementes e porcelana chinesa”. No Posto também foram encontradas ruínas de cinco casas. Os vestígios encontrados sugeriam ocupações do local em distintas épocas:

  1. O silo serviria para guardar cereais e sementes durante a ocupação dos jesuítas no local;

  2. O silo teria servido de depósito de lixo do acampamento de tropas da Comissão Demarcadora do Tratado de Madrid, em fevereiro de 1752, quando teriam supostamente jogado fora, no silo, louça quebrada proveniente da limpeza do acampamento.3

No entanto, a data de ocupação do Posto de Santa Tecla pela Comissão Demarcadora não foi em 1752, como foi registrado, talvez por erro de impressão do jornal. Na

verdade, a ocupação por parte dos jesuítas do Posto de Santa Tecla iria até um pouco mais tarde que o ano de 1752, como registram cartas provenientes ou assinadas a partir de Santa Tecla, no ano de 1755:

O ano de 1755 não registrou enfrentamentos entre exércitos.Tampouco qualquer tipo de animosidade. Foi marcado pela estratégia indígena de disseminar avisos pelo território, repetindo aos plenipotenciários ibéricos a determinação guarani à resistência. Uma prática muito difundida pelos índios foi a das cartas afixadas em paus cravados no solo, como a que deixaram para o Marques de Valdelirios e posteriormente localizada por Andonaegui nas imediações de Santa Tecla (posto militar4 espanhol). A carta seguia um modelo de reescritura religiosa e justificava a primazia guarani sobre essas, terras alegando que estavam protegidas por São Miguel e Deus. O conteúdo visava alertar os exércitos ibéricos coligados da inevitável reação guarani à sua presença. Era um informe anônimo, provavelmente lavrado em algum cabildo missioneiro. [A. G. S. Secretaria de Estado, Legajo 7424, doc. 459. Carta de los Caciques que encontro D. Joseph de Andonaegui colgada en un palo para mi. Santa Tecla, y Junio 13 año de 1755]. Essa mesma carta explicita que havia um consenso, bastante negativo, entre os índios a respeito de Gomes Freire, pois este havia desrespeitado a convenção de 1754, enganando consequentemente a todos que haviam se empenhado nesse acordo. [Tradução: “El Governador del Paraguay, nos avissó bien que Dn Gomez Freire de Andrada V. M de Dios medite tu palabra en Yacuy. Nosotros Señor entonces nunca en esta vida triste nos dijo que nunca haviamos de andar, ni a nosotros nos estava bien el que nos haya engañado quando ni mas ni a V.M ni a Dios le parece bien que nos engañes”. A. G. S. Secretaria de Estado, Legajo 7424, documento 459. Santa Tecla, y Junio 13 año de 1755].5

A Primeira Partida Demarcadora chegou ao Posto de Santa Tecla em 26 de fevereiro de 1753 e foi barrada pelos índios. Como parte de um sistema ou complexo, o posto de Santa Tecla, em 1753, foi o primeiro marco de uma resistência mais significativa que se apresentava ao longo do caminho da Comissão Demarcadora. Como uma das estâncias que faziam parte do Povo de São Miguel, o posto de Santa Tecla possivelmente era o núcleo da estância de Santa Tecla, embora a ideia de posto, ou o conceito de posteiro, pudessem dar também uma ideia menor, mitigada, de um núcleo de estância. Afinal, era um posto ou uma estância, o que existia em Santa Tecla? Essa resposta era importante porque ajudava a compreender como Santa Tecla inseria-se no contexto das Missões Jesuítas.

(...) No entanto, quando em fevereiro de 1753, a Primeira Partida Demarcadora chegou a Santa Tecla (Bagé, RS), estância do povo de São Miguel, foi impedida de prosseguir. (...) Gomes Freire foi instado a retroceder para a vila do Rio Grande, a espera de nova convocatória, agora para juntarem os dois exército nas cabeceiras do rio Negro e invadir as Missões pela estrada geral dos índios, melhor caminho para suportar o trem de guerra, o qual conectava Santa Tecla a São Miguel e, deste, com os demais povos, além de outras veredas conhecidas pelos missioneiros. (...) Somente no final de 1755, o seu poderoso trem de guerra começou a se mover para a junção nas cabeceiras do rio Negro, na estância miguelista de Santa Tecla. (...) José Custódio usou as informações do Mapa do padre Tadeu Henis, conseguido por Blasco, considerando-o importante documento em defesa da tese portuguesa sobre a origem do Ibicuí, ao sul, na região de Santa Tecla. 6

1Mestre em História do Brasil.

2 Essa entrada subterrânea deveria ser melhor estudada. Ela seria uma entrada subterrânea para o silo ou uma pequena entrada por onde seria colocada a lenha para a queima da pedra cal?

3 Zero Hora, “Descoberto Silo Indígena perto do Forte de Santa Tecla”. Porto Alegre, 26 de fevereiro de 1982, p. 21.

4 Na verdade, ao que parece não se poderia falar em posto militar de Santa Tecla, visto que cumpria uma função econômica, funcionando como um posto de estância jesuítica, que mantinha as criações de gado. No entanto, poderia ter funcionado, na época da invasão do território jesuítico, de forma militar.

5 NEUMANN, Eduardo. "Mientras volaban correos por los pueblos": autogoverno e práticas letradas nas missões Guarani - século XVII. Horiz. antropol., Porto Alegre, v. 10, n. 22, Dec. 2004 . Available fromhttp://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832004000200005 . access on 30 Mar. 2012. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832004000200005.

6 Cartografia da Guerra Guaranítica. Tau Golin. Anais do I Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica. pp. 6-9-10-14.http://www.ufmg.br/rededemuseus/crch/simposio/GOLIN_LUIZ_CARLOS_TAU.pdf .