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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Guerra do Paraguai e Bagé: 150 anos(1864-2014) Capítulo II



Capítulo II


Cláudio Antunes Boucinha [ Licenciado em História (UFSM). Mestre em História do Brasil (PUCRS)]


“Não…”, ela respondeu. “É só a vida… A vida e o ar que se respira”. [ “A Alma e o Coração da Baleia”. Volta Ao Mundo Em 52 histórias. Neil Philip. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1998].




Foi um Natal bem diferente, para os brasileiros, em 1864


Em meio as celebrações do Natal, o país mergulhava na maior hecatombe do século XIX na América Latina. Na pesquisa de Marta Iansen[ "Marta Iansen - Google+." 2012. 24 Dec. 2014 <https://plus.google.com/101368058210522163228>], utilizando como fonte a literatura, especialmente José de Alencar e Machado de Assis, além de gravura de Debret, identificava-se os costumes brasileiros, especialmente na elite escravocrata, em 1850 e 1871. O Natal, de maneira pouco crítica, incorporava os escravos, denunciando, desde logo, o contexto de exploração do trabalho em que viviam no Brasil, durante a guerra:


A Celebração do Natal no Brasil do Século XIX. (...) "Era antevéspera de Natal. Na Casa Grande tudo estava em movimento e rebuliço com os preparativos da festa. À exceção da baronesa, a quem nada podia arrancar de sua fleuma desdenhosa, cada uma das pessoas da fazenda se ocupava em qualquer dos vários arranjos para a função do Natal que esse ano prometia ser ainda mais chibante do que de costume. Alice, que dirigia os aprestos, distribuíra a cada um sua tarefa, da qual não escaparam nem o dono da casa, nem os hóspedes. O barão fora encarregado de escrever nos rótulos de prata das garrafas os nomes dos vinhos e fazer as encomendas para a Corte. O conselheiro devia dar uns versos para a cantiga do Natal. D. Luísa e Adélia recordavam ao piano as músicas de canto e dança. D. Alina se incumbira do arranjo dos quartos para os convidados. Lúcio e Frederico, armados ambos de tesoura, recortavam papel dourado, prateado e de várias cores, destinado a fazer rosetas para os castiçais, ou mangas para os presuntos e pernas de carneiro." [José de Alencar, O Tronco do Ipê - Publicado em 1871, tem sua ação situada em 1850, numa fazenda do interior fluminense”. http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Tronco_do_Ip%C3%AA ]. (...) "Quatro dias antes do dia marcado para o meu casamento, a festa do Natal. Minha mãe costumava dar festas às escravas. Era um costume que lhe deixara minha avó. As festas consistiam em dinheiro ou algum objeto de pouco valor." [Machado de Assis, Mariana -  Texto-fonte: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Publicado originalmente em Jornal das Famílias, janeiro de 1871. http://www.machadodeassis.ufsc.br/obras/contos/avulsos/CONTO,%20Mariana,%201871.htm ]”. [ Marta Iansen . http://martaiansen.blogspot.com.br/2011/12/celebracao-do-natal-no-brasil-do-seculo.html ]; [ “O Natal no fim do século XIX”. Pedro Noslasco Maciel. (Extraído de um romance Traços e troças, de Pedro Nolasco Maciel, editado em Maceió em 1899). (Maciel, Pedro Noslasco. "O Natal no fim do século passado". Gazeta de Alagoas. Maceió, 25 de dezembro de 1949). http://www.jangadabrasil.com.br/revista/dezembro73/pa73012b.asp ].


Prancha 25: Presentes de Natal. Dão-se presentes no Brasil especialmente por ocasião das festas de Natal, de 1º do Ano e de Reis. No dia de Natal e no dia de Reis, sobretudo, são de rigor os presentes de comestíveis, caça, aves, leitões, doces, compotas, licores, vinhos etc. Costuma-se renovar na mesma época a roupa dos escravos, o que leva a conceder, em geral, gratificações aos subalternos.
Entretanto, entre as pessoas de bem, os presentes de um gosto mais apurado são mandados em bandejas de prata com toalhas de musselina muito finas, pregueadas com arte e presas com laços de fitas cuja cor é sempre interpretativa, linguagem erótica complicada pela adição engenhosamente combinada de algumas flores inocentes. A véspera do dia de Reis é igualmente festejada. Com efeito, grupos de músicos organizam serenatas debaixo do balcão de seus amigos, os quais, em troca, os convidam a subir para tomar algum refresco e continuar o concerto no salão até de madrugada. Para a classe inferior, composta de mulatos e negros livres, essa noite constitui um carnaval improvisado; fantasiados, em pequenos grupos escoltados por músicos, percorrem as ruas da cidade e, quando a noite é bela, prolongam sua excursão pelos arrabaldes, onde acabam entrando numa venda e aí ficando até o nascer da aurora. Outros, ao contrário, preferem organizar pequenos salões de baile, onde se divertem ruidosamente, dançando uma espécie de lundu, pantomima indecente que provoca os alegres aplausos dos espectadores, durante toda a noite. Eis no que se transformou no Brasil o aniversário da visita dos Reis Magos. O desenho representa a entrega de dois presentes de importância diversa: o primeiro, carregado por três negros entrando por um portão, traz a carta de congratulações entre as garrafas de vinho do Porto; a apresentação do segundo, mais modesto e talvez galante, é confiada à inteligência da negra encarregada de entregá-lo num humilde rés-de-chão. A cena se passa perto do Jardim Público, cujo muro, que dá em parte para o Largo do Convento da Ajuda e em parte para o mar, se percebe ao longe”. [ Debret e o Natal brasileiro. Na sua inúmeras vezes republicada Viagem pitoresca e histórica ao Brasil(Voyage pittoresque et historique au Brésil), Jean Baptiste Debret por duas vezes se referiu às tradições natalinas brasileiras, ao tempo do império de D. Pedro I, período em que esse pesquisador francês freqüentou as Cortes cariocas e fez diversas viagens de estudos pelo País. São estes os trechos de sua narrativa, com as respectivas pranchas das imagens descritas:...http://www.novomilenio.inf.br/festas/natal03.htm ].




“Prancha 7: Mulata a caminho do sítio para as festas de Natal. As festas do Natal e da Páscoa, sempre favorecidas no Brasil por um tempo magnífico, constituem épocas de divertimentos tanto mais generalizados quanto provocam mais de uma semana de interrupção no trabalho das administrações e nos negócios do comércio; o descanso é igualmente aproveitado pela classe média e pela classe alta, isto é, a dos diretores de repartições e dos ricos negociantes, todos proprietários rurais e interessados, portanto, em fazer essa excursão em visita às suas usinas de açúcar ou plantações de café, a sete ou oito léguas da capital. Quanto aos artífices, reunidos na casa de seus parentes ou amigos, proprietários de sítios vizinhos da cidade, aproveitam essas festas para gozar em liberdade os prazeres que essas curtas e pouco dispendiosas excursões lhes permitem. Basta-lhes, com efeito, mandar levar sua esteira e sua roupa pelo seu escravo. À noite, à hora de dormir, as esteiras desenroladas no chão, cada qual com seu pequeno travesseiro, formam leitos de emergência, distribuídos pelas três ou quatro salas do rés-do-chão, que constituem uma residência desse tipo. No dia seguinte, ao romper do dia, ergue-se o acampamento, e os mais ativos se separam para ir passear ou banhar-se nos pequenos rios que descem das montanhas vizinhas. O exercício da manhã abre o apetite; volta-se para almoçar, mas inventam-se divertimentos mais tranqüilos para o momento do sol forte, até uma hora da tarde, quando se janta. Das quatro às sete dorme-se e, depois da ave-maria, dança-se durante toda a noite ao som do violão. Deliciosos momentos de fresca, empregados pelos velhos na narrativa de suas aventuras do passado e pelos moços em dar origem a alguns episódios felizes, cuja recordação encantará um dia a sua velhice. Este ligeiro esboço dá entretanto apenas uma pobre idéia das brilhantes recepções realizadas na mesma época nas imensas propriedades dos ricos, que, por vaidade, reúnem numerosa sociedade, tendo o cuidado de convidar poetas sempre dispostos a improvisar lindas quadrinhas e músicos encarregados de deleitar as senhoras com suas modinhazinhas. Os donos da casa também escolhem, por sua vez, alguns amigos distintos, conselheiros acatados do proprietário na exploração da fazenda, que visitam demoradamente com ele, ao passo que, ao contrário, os jovens convidados, ágeis e turbulentos, entregam-se a essa louca alegria sempre tolerada do interior. Aí, todos os dias começam, para os homens, com uma caçada, uma pescaria ou um passeio a cavalo; as mulheres ocupam-se de sua toalete para o almoço das dez horas. À uma hora todos se reúnem e se põem à mesa; depois de saborear, durante quatro a cinco horas, com vinhos do Porto, Madeira ou Tenerife, as diferentes espécies de aves, caça, peixes e répteis da região, passam aos vinhos mais finos da Europa. Então o champanha estimula o poeta, anima o músico, e os prazeres da mesa confundem-se com os do espírito, através do perfume do café e dos licores. A reunião prossegue em torno das mesas de jogo; à meia-noite serve-se o chá, depois do qual cada um se retira para o seu aposento, onde não é raro deparar com móveis, perfeitamente conservados, de fins do século de Luís XIV. No dia seguinte, para variar, vai-se visitar um amigo numa propriedade mais afastada; tais cortesias aumentam ainda os prazeres dessa semana, que sempre parece curta demais. Alguns amigos íntimos, que dispõem de seu tempo, ficam com a dona da casa, cuja estada se prolonga durante mais de seis semanas ainda, em geral, depois do que todos tornam a encontrar-se na cidade. A mulata representada aqui é da classe dos artífices abastados. Sua filhinha abre a marcha conduzindo pela mão um negrinho, bode expiatório a seu serviço particular; vem em seguida a pesada mulata, em lindo traje de viagem, que se dirige a pé para o sítio situado num dos arrabaldes da cidade; a negra criada de quarto a acompanha carregando o pássaro predileto. A mulata contenta-se com uma criada de quarto preta a fim de não comprometer a própria cor. Vem logo depois da primeira negra de serviço, com o gongá, cesto em que se coloca a roupa-branca. A terceira negra carrega o leito da senhora, elegante travesseiro enrolado numa esteira de Angola (bastante bem imitada na Bahia). A quarta, encarregada de trabalhos grosseiros, lavadeira quase sempre grávida, carrega os trastes das outras companheiras; e a negra nova acompanha humildemente o cortejo, carregando a provisão de café torrado e a coberta de algodão com que se envolve à noite para dormir”. [  “Debret e o Natal brasileiro. Na sua inúmeras vezes republicada Viagem pitoresca e histórica ao Brasil (Voyage pittoresque et historique au Brésil), Jean Baptiste Debret por duas vezes se referiu às tradições natalinas brasileiras, ao tempo do império de D. Pedro I, período em que esse pesquisador francês freqüentou as Cortes cariocas e fez diversas viagens de estudos pelo País. São estes os trechos de sua narrativa, com as respectivas pranchas das imagens descritas:...”. http://www.novomilenio.inf.br/festas/natal03.htm ].




Os costumes de Natal, no século XIX, ainda não estavam padronizados no modelo norte-americano:

Among the cartoonists who contributed to the development of the iconography was the German-born illustrator Thomas Nast, who designed the covers and illustrations of the Christmas issues of Harper's Weekly Magazine between 1863 and 1886. He is responsible for the introduction of the name Santa Claus, a contamination of Sinterklaas and German Sankt Niklaus. Between 1931 and 1964, Coca Cola used Santa in its advertisements, which established him as an all-American commercial icon, not unlike Donald Duck and Mickey Mouse”. [ Jona Lendering for Livius.Org, 2005 . Revision: 20 Nov. 2008. http://www.livius.org/ne-nn/nicholas/nicholas_of_myra3.html#New ].


Quando começou a Guerra do Paraguai, certamente que os festejos natalinos estavam em curso. Notava-se a indiferença dos chefes militares para com a data festiva. Os paraguaios estariam motivados por outra comemoração, coincidentemente na mesma época, vinte e cinco  de dezembro [  “(...) el 25 de diciembre de 1842 se proclamó la Jura de la Independencia Nacional en la capital, Asunción, confirmándose de esa manera, el grito de libertad dado en la madrugada del 15 de mayo de 1811”. http://es.wikipedia.org/wiki/25_de_Diciembre_%28Paraguay%29 ]?

“No dia 13 de Dezembro de 1864, a República do Paraguai, declara oficialmente guerra ao Império do Brasil, na sequência da intervenção brasileira no Uruguai, em apoio de uma das fações que de combatiam naquele país. Esta declaração iniciará a Guerra do Paraguai, que será a maior conflagração militar na história da América do Sul. (...) Ainda antes de 13 de Dezembro, Solano Lopez dá ordens ao exército do Paraguai para que entre em território brasileiro na província do Mato Grosso”. [  http://www.areamilitar.net/HistBCR.aspx?N=144 ].

Em 14 de dezembro, os chefes paraguaios Barrios e Resquim, à frente de 4.200 e 5.000 homens respectivamente, invadiram Mato-Grosso”. [ http://www.ahimtb.org.br/confliext13.htm ].

“Em 14 de dezembro de 1864 uma expedição naval paraguaia partia de Assunção para o ataque a Mato Grosso. (...) Em 27 de dezembro de 1864 “os paraguaios abriram fogo contra o forte, e o bombardeio continuou até o dia seguinte, quando se lançaram ao ataque” (THOMPSON, 1968, p. 44 -  THOMPSON, George. Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Conquista, 1968). [  http://www.upf.br/seer/index.php/ph/article/view/3659/2406 ].

“A campanha de Mato Grosso foi confiada ao general Vicente Barrios e partiu a 24 de dezembro de 1864 com 3.200 homens em 5 vapores e 3 goletas. O objectivo foi alcançado com êxito: tomou e saqueou a cidade de Corumbá e tomou posse da província e de suas minas de diamantes. [  http://fortalezas.org/?ct=personagem&id_pessoa=2449 ].

25 de dezembro de 1864 - Marinha paraguaia chega ao forte Coimbra. Ignorando as decisões tomadas pelo governo paraguaio com relação ao Brasil, o novo comandante da guarnição brasileira, tenente-coronel Hermenegildo Portocarrero, não percebeu quando as forças comandadas pelo coronel Vicente Barrios, subiram o rio Paraguai e, parando a uns 100 quilômetros do forte, enviaram um navio para fazer o reconhecimento. ‘Este foi e voltou sem ser visto e informou que próximo ao forte ouviu tiros. Soube-se depois que a guarnição estava fazendo exercícios de tiro ao alvo, sem saber que o inimigo se aproximava’” [ ”FONTE: Carlos Francisco Moura, O forte de Coimbra, sentinela avançada da fronteira, Edições UFMT, Cuiabá, 1975, página 60]. [ http://datasefatoshistoricos.blogspot.com.br/2013/12/25-de-dezembro.html ].
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No dia 26 de dezembro de 1864, desembarcaram ao sul do Forte de Coimbra, tropas paraguaias e a 27 de dezembro uma sentinela avistou os vapores paraguaios a uma légua daquele ponto; cerca de oito horas e trinta minutos, recebeu o Tenente Coronel Porto Carrrero, comandante do Distrito Militar do Baixo Paraguai e do Corpo de Artilharia da Província, que na ocasião realizavam inspeção no Forte, a intimação de Vicente Barrios, que por ordem do seu Governo, veio tomar posse da Fortaleza e pedia-lhe que se entregasse no prazo de uma hora e caso não o fizesse, tomá-la-ia a força”. [ http://guerradoparaguaimatogrossodosul.blogspot.com.br/p/a-ocupacao-de-mato-grosso-novembro-de.html ].

Em dezembro de 1864, por ocasião da Guerra do Paraguai, onde o Brasil participou fazendo parte da Tríplice Aliança, foi lançado um poderoso ataque contra Coimbra. Após aquela batalha, o forte passaria ao comando dos espanhóis por 3 anos, tendo sido posteriormente retomando através das ofensivas do Marquês de Caxias. Ao anoitecer do dia 26 de dezembro de 1864 foi avistado, próximo ao forte, poderosa esquadra, comandada pelo Coronel Vicente Bárrios, composta por 11 navios de guerra com 29 peças de artilharia de bordo e posição e 3200 homens. A guarnição brasileira era constituída de uma canhoneira - Anhambaí, com dois canhões  - e aproximadamente 250 pessoas: 115 soldados, 40 civis, 18 presos, 70 mulheres e 10 índios guaicurus, numa inferioridade de 30 x 1”. [ http://www.ivan.med.br/fortecoimbra/coimbra_fatos.html  ].


A notícia da invasão do Mato Grosso pelas tropas de Lópes em 24 de outubro[?] de 1864 correu como um rastilho de pólvora pela Província de São Paulo. Manifestações populares, comícios e associações patrióticas foram formadas, tal qual aconteceria 68 anos depois nesta mesma cidade… A “Associação Promotora de Voluntários da Pátria” com sede no Largo da Sé apresentou no início de 1865 um grande contingente de soldados voluntários. Esta mesma associação também os fardou, armou e transportou os voluntários que formaram o 7º de Voluntários da Pátria. Este batalhão era composto de oito companhias tendo cada uma um capitão, um tenente e dois alferes. Como comandante o Tenente Coronel Francisco Joaquim Pinto Pacca, major reformado do Exército;(...)”. [ http://tudoporsaopaulo1932.blogspot.com.br/2011/03/7-de-voluntarios-da-patria-paulistas-na.html . Quarta-feira, 16 de março de 2011. “7º de Voluntários da Pátria - Paulistas na Guerra do Paraguai”. Todas as informações contidas nest post foram resumidas do original "O Espírito Militar Paulista" do Tenente Coronel Pedro Dias de Campos, publicado em 1923. Postado por Ricardo_R32 às 09:15].

A guerra chegava “eletrizando” o país, em 1864, conforme  Hendrik KRAAY:

“A eclosão da guerra provocou uma onda de patriotismo em todo o país. Na véspera de Natal de 1864, João Batista Calógeras, um funcionário público no Rio de Janeiro, escreveu sobre a "efervescência patriótica" que já chegara a "36 graus". "Deus ajude o Brasil", acrescentou preocupado. [ João Batista Calógeras a Pandiá George Calógeras, Rio de Janeiro, 24/12/1864, in João Batista Calógeras, Um ministério visto por dentro: cartas inéditas de João Batista Calógeras, alto funcionário do império, organizado por Antônio Gontijo de Carvalho, Rio de Janeiro: José Olympio, 1959, p. 175].

Embora esse "patriotismo militante" fosse, como lembra Richard Morse, compartilhado principalmente por "uma elite europeizada", ele se estendeu mais profundamente na sociedade do que muitos historiadores reconhecem, chegando a revelar uma "fibra nova até então desconhecida da nacionalidade". [ Richard M. Morse, From Community to Metropolis: A Biography of São Paulo, Brazil, New York: Octagon Books, 1974, pp. 142-43;     Eduardo Silva, "O Príncipe Obá, um Voluntário da Pátria", in Maria Eduarda Castro Magalhães Marques (org.), Guerra do Paraguai, 130 anos depois, Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995, p. 70].

Milhares de homens (e mesmo algumas mulheres) se apresentaram voluntariamente para pegar em armas ou para servir ao país de outras maneiras, enquanto os governos imperial e provinciais foram inundados por doações em espécie e em mercadorias para o esforço de guerra. A criação das companhias negras na Bahia e em Pernambuco fez parte dessa mobilização patriótica maciça.
Para facilitar o recrutamento, o governo imperial criou os Voluntários da Pátria na primeira semana de janeiro de 1865. Os soldados e oficiais dessas novas unidades serviriam apenas enquanto durasse a guerra, receberiam uma gratificação na hora de assentar praça e soldos mais elevados que os da tropa de linha. Depois da guerra, seriam recompensados com terras em colônias agrícolas e preferência na contratação para o funcionalismo público. Essas condições foram logo estendidas aos guardas nacionais designados para o serviço militar, e nada menos que 75% dos 91.000 homens alistados (segundo o Exército) tinham direito ao status e aos benefícios dos Voluntários. [ Decreto 3371, 7/1/1865; Decreto 3508, 30/8/1865, CLB; "Mappa da força com que cada uma das Provincias do Imperio concorreu para a guerra do Paraguay, segundo os mappas remettidos a esta Secretaria de Estado", in Brasil, Ministro da Guerra, Relatório (1872); Peter M. Beattie, The Tribute of Blood: Army, Honor, Race, and Nation in Brazil, 1864-1945, Durham: Duke University Press, 2001, pp. 173-74].


Milhares assentaram praça voluntariamente em 1865. Um amanuense da secretaria da tesouraria provincial baiana ingenuamente solicitou três meses de licença com vencimento para participar da guerra contra o "déspota do Paraguai"; o professor público da cadeira primária da freguesia de São João do Paraguaçu demonstrou mais juízo ao pedir uma licença por tempo indeterminado. Estudantes de medicina serviram voluntariamente nos hospitais de sangue. Muitos dos que se apresentaram faziam parte da pequena "classe média", cujos integrantes tinham ligações estreitas com o Estado, e Calógeras se perguntou o que aconteceria com tais "homens que nunca manejaram um fuzil" [ Requerimentos de José Jorge Bisucheth e José Jorge Perrucho ao Presidente, [Salvador], ca. 1865, APEB/SACP, maço 3670; Presidente ao Ministro da Guerra, Salvador, 4/8/1865, ANRJ/SPE/IG1, maço 125, fl. 247; J. B. Calógeras a P. G. Calógeras, Rio de Janeiro, 12/1/1865, in Calógeras, Ministério, p. 197] . [ KRAAY, Hendrik. Os companheiros de Dom Obá: os zuavos baianos e outras companhias negras na Guerra do Paraguai. Afro-Ásia,  Salvador ,  n. 46,   2012 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0002-05912012000200004&lng=en&nrm=iso >. access on  13  Dec.  2014.  http://dx.doi.org/10.1590/S0002-05912012000200004].

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