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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O Barão de Itararé em Bagé

 

Introdução

O texto  a seguir é de autoria de José Carlos Teixeira Giorgis. O trabalho foi publicado no Jornal Minuano. Giorgis é atualmente o Diretor do Memorial do Judiciário do Estado do Rio Grande do Sul:

“Em 23 de janeiro de 1998, Portaria assinada pelo Presidente do Tribunal de Justiça, Desembargador Adroaldo Furtado Fabrício, criou o Projeto Memória. O início das atividades ocorreu em 6 de julho do mesmo ano, já na Presidência do Desembargador Cacildo de Andrade Xavier. Mais tarde, pela Portaria nº 35/2000-P, de 11 de outubro de 2000, o Projeto converteu-se em Centro de Memória do Judiciário Gaúcho. E somente mediante a Portaria nº 01/2002, assinada pelo então Presidente, Desembargador Luiz Felipe Vasques de Magalhães, em 09 de janeiro de 2002, o Centro transformou-se em Memorial do Judiciário do Estado do Rio Grande do Sul. Em 29 de janeiro do mesmo ano, foram inauguradas as novas instalações no andar térreo do Palácio da Justiça”. (…) “O Memorial é coordenado por Desembargador designado pelo Presidente do Tribunal de Justiça. Atualmente, a equipe é composta por seis servidores e quatro estagiários do TJRS, além do Diretor. Diretor: Desembargador José Carlos Teixeira Giorgis.

 

José T. Giorgis

terça-feira, 19 de novembro de 2013 às 22:22

 O jornalista Apparício Torelly, por sua vida social e política ou pelo fino humor que imprime em seus textos, sem dúvida é uma das mais singulares e pitorescas personalidades da primeira metade do século vinte.

Chegou-se a atribuir seu nascimento a Bagé (janeiro de 1895), como também Rio Grande, onde moravam seus pais, que disputa o privilégio de haver sido seu berço; mas ele mesmo esclarecia que viera ao mundo a bordo de uma diligência "em algum lugar do Uruguai", pois sua mãe, oriental, queria ter o parto na fazenda de seus genitores, no departamento de Trinta e Três.

Todavia é inequívoco que desembarcou em Bagé, vindo de Rio Grande, em dezembro de 1919, aqui estreando como humorista em janeiro de 1920, numa conferência intitulada "As caras", realizada no Teatro Avenida. Sua impressão sobre a cidade ficou registrada em uma de suas primeiras crônicas no "Correio do Sul", onde narrou: "Embarco de manhã. Dia quente. Às duas e trinta e cinco da tarde, por entre uma nuvem de pó, em plena marcha do comboio, resolvo que a vida é estúpida, às três horas, o trem sai dos trilhos. Estúpido também. Os passageiros sofrem sustos passageiros. Gritos, reclamações. Eu também perco a linha".

Mais adiante escreveria: "Voltarei a Bagé em automóvel, em bicicleta, em carroça de bois, em velocípede, em carrinho de mão, por mar, a cavalo, de qualquer jeito. De trem, nunca mais!".

Hospedado no Hotel do Comércio, repara que sua palestra irá acompanhar os festejos pela mudança de ano e conta: "Grupos de rapazes despejam seus revólveres. Eu fico quieto, Mais tiros. Mais disparos. Ninguém me acerta. Eu não reajo. Se alguém me ferir, disparo, sim, disparo também. É perigoso passear de aeroplano, por cima de Bagé, na noite de Ano Novo. Não me impressiono com a passagem de Ano".

Conquistou a amizade de Fanfa Ribas que o chamava de "meu vate"; e por isso o substituiu na direção do jornal por duas semanas, quando Apporelly, alcunha adotada, criou a coluna "Traços e Troças", onde, para enfrentar a lama que enfrentavam os pedestres, lançou um texto filosófico: "O barro existente em nossas ruas traz consigo a vantagem bíblica de manter-nos a constante lembrança da nossa lodosa origem ( ). Foi com um punhado dessa argila escorregadia, amassada com perícia experimentada do Divino Escultor, que nosso pai Adão foi fabricado". Como o periódico, atacava duramente a Borges de Medeiros; e ao mesmo tempo colaborava com o "O Rebate", de Pelotas, onde tinha muitos admiradores.

Com a volta de Fanfa Ribas, parte para São Gabriel elogiado pelo diretor pela "maneira gentil e correta com que se desobrigou do espinhoso encargo"; mas em fevereiro de 1922, ao retornar a Bagé, ataca furiosamente seu antigo mestre, taxando-o de " aliado da ditadura borgista" e qualificando-o de "viscoso diretor do Correio do Sul", tudo escrito em "A tradição", folha que desde 1921 tinha "como diretor o talentoso, primoroso poeta-humorista Apparício Torelly" e fundada por Ivo Roxo para apoiar a candidatura de Rafael Cabeda, maragato que pedia votos para Artur Bernardes, enquanto Fanfa favorecia Artur Pinto Rocha e pregava a abstenção dos maragatos na eleição presidencial.

Era ferina a raiva de Apporelly contra Artur Pinto da Rocha, pois o candidato, "um adesista interesseiro", no passado havia comemorado a morte de Gumercindo Saraiva na "A Federação", em injúria histórica ("Miserável! Pesada como os Andes te seja a terra que generosamente vai cobrir teu cadáver maldito"), chamara o herói maragato de "besta fera do Sul e carrasco do Rio Grande", e classificara Silveira Martins como "Judas Iscariotes", mas agora bajulava os correligionários daqueles em busca de votos.

Technorati Marcas:

Após as vitórias de Cabeda e Bernardes, "A Tradição" encerra sua publicação, sendo substituída (1922) pela chegada a Bagé do "Diário do Commércio", de que Apporelly já era colaborador.

Em São Gabriel o jornalista dirigiu "A Notícia", fustigando Borges e apoiando Assis Brasil, logo eclodindo a Revolução de 1923; mais tarde (1924) dirigiria, em São Gabriel, "A Reação", considerado órgão oposicionista e simpático à Aliança Libertadora.

Em 1921 casara com Alzira Alves, criada por um médico gabrielense, pois, segundo entendia, não devia seguir o conselho do filósofo cínico, que, a respeito do casamento dissera: "Se fores moço, ainda é muito cedo; se fores velho, já é muito tarde".

Seus filhos Ary e Arly aqui nasceram; e Ady, em Rio Grande, já com a união deteriorada.

Após o desquite, em que acusou Alzira de adultério, vem a lume relação amorosa que teve com a esposa de seu protetor gabrielense, um verdadeiro escândalo, sendo ameaçados por um grupo denominado "os degoladores", não mais voltando à cidade.

Deixando os filhos em Rio Grande, foi para o Rio, onde construiu vida de resistência política e humor, já como Barão de Itararé.

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Obra consultada: "Entre sem bater. A vida de Aparício Torelly, o Barão de Itararé", de Cláudio Figueiredo. Casa da Palavra, 2012. Nela o autor agradece ao professor Cláudio Antunes Boucinha, cujo blog com trechos de Apporelly no "Correio do Sul", o estimulou a investigar a carreira do humorista na imprensa do interior do RS na década de 1920.

Por: José Teixeira Giorgis.

Fonte: http://jornalminuano.com.br/VisualizarNoticia/4394/o-barao-de-itarare-em-bage.aspx#.UtUyTNJGU08 .

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